Não é sempre, mas quase. Leio antes de escrever e por minutos longos me perco em palavras que não são minhas e nunca vão ser. Depois, apago tudo e me revisto de um longo silêncio estranho onde ouço mas não entendo, te sei mas pouco importa. Pois hoje, lendo para escrever descobri que na cultura oriental o dedo mindinho é diretamente relacionado ao coração. Uma ponte direta, por assim dizer. Ao saber disso me vi refletida no vidro da sala e eu estava, como sempre, torcendo os dois dedos mindinhos. Que será que isso quer dizer?
Escrito por Cristiane Lisboa às 13h52
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Começo de uma história que não continuou
No ovo, o problema é a gema. São poucos, muito poucos os que conseguem manter a gema intacta, firme, cozida e sem aquela capa branca de clara escorrida que atrapalha a beleza do prato. Para chegar a tal perfeição é preciso anos de treino intenso, quilos de manteiga decente e uma frigideira limpa apenas com um pano seco. Não é acúmulo de sujeira, é respeito. O sebo que se acumula no fundo vira uma camada entre a chama, alta, por favor, e o fundo do ovo. Isso faz com que ele frite por igual, dourando mais nas bordas e endurecendo a tempo da gema não ficar nojenta. Complicado? Já joguei muito ovo frito na privada. Mas hoje, estou aqui. Aos oito anos entendi porque eu era magro. Minha mãe é a pior cozinheira do mundo. Ela tinha capacidades inscríveis como cozinhar legumes até virarem uma pasta insossa, tacar creme de leite e fingir para os meus colegas de escola que era uma sopa de tartaruga. Eles comiam. Mas era só pela imagem de estar comendo tartaruga derretida. Meninos são estranhos. Quando ela fez arroz doce usando leite condensando realmente me irritei. Esperei ela sair de casa para jogar aquela coisa no lixo. Coloquei um avental, lavei bem as mãos e abri o armário. Começava ali a minha vida inteira. Não tinha receita, claro. Em momento algum isso me assutou. Nunca entendi as receitas anotadas por que quem que seja, desconfio sempre que falta algum ingrediente secreto que só pode ser revelado oralmente e jamais foi ou será escrito em um caderno espiral pingado de massa de empada. Também não entendo os livros de receitas e sequer consigo imaginar as pessoas que tem coragem de comprá-los. Será que fazem exatamente igual ao que letras mandam? Será que tem na despensa todos os ingredientes? Será que nunca exitaram sobre as medidas estranhas? Uma xícara de chá na Jamaica jamais será proporcional a uma xícara de chá em Uruguaiana. Será que ficam decepcionadas quando o resultado final em nada se parece com a foto? Será que transam com manuais de instrução? Livros de receitas são apenas livros de ficção com papel melhor e grandes fotos. Sim, tenho muitos. Todos meus. Mas estudo essas coisas. E o estudo sempre foi desculpa para qualquer tipo de maluquice. A primeira lobotomia foi feita apenas para anotações minuciosas. Acredite. Então era uma mãe fora, um garoto com os ossos aparecendo e desafio supremo: arroz doce. Sentei na mesa e fechei os olhos. Era preciso concentração para chegar até a memória degustativa que eu não sabia ainda mas era meu tesouro mais precioso. Atré hoje sou capaz de lembrar cada refeição da minha vida e saber se ela foi feita com azeite de soja ou oliva. Lembrei de uma churrascaria enorme, dessas que aos domingos tem música ambiente feita por um saxofonista gordo acompanhado do filho tecladista. A carne era mal assada, o arroz um papa e a salada de maionese uma atrocidade. Mas o arroz doce era divino. Tinha uma textura cremosa, e um azedinho de fundo que me fazia feliz mesmo que minha roupa estivesse com pingos minúsculos de sangue. Garçons de churracaria não respeitam crianças sentadas na cadeirinha alta e fazem atrocidades como pingar sangue e gordura quentes nelas e dar risada. Abri os olhos e ordenei na mesa os ingredientes e uma xícara. Minha medida seria ela. Ficou uma bosta. Os filhos do zelador gostaram bem, mas desculpe a sinceridade, eles comiam tatu-bola e não poderiam ser mau parâmetro de paladar. Acertei apenas quando todos os ingredientes estavam em temperatura ambiente. Era isso. Llivros de culinária e receitas anotadas nunca dizem estes detalhes. Charlatões. Quando finalmente consegui, coloquei na travessa mais bonita da casa, sentei no chão e comi tudo. Estava delicioso. E definitivamente a minha mãe não merecia ter paladar. Lavei a louça como um criminoso que não deixa vestígios. Lembrei até de sujar um copo com leite e chocolate para fingir que havia tomado um lanche, o que poderia me livrar da janta. “Quem comeu todo o arroz doce?” Crimes perfeitos não existem. No acesso de ódio joguei fora. E não coloquei nada no lugar. Inclusive, lavei o pirex. “Fui eu.” “Estava bom?” Sorri. (Até hoje minto apenas com o corpo. Sorrisos, piscadas e mexida de cabeça para a direita sincronizada com sinal de positivo.) “Comeu bebendo leite com achocolatado?” Sorri. “Puxou ao seu pai. Paladar classe média burra.” Ela merecia morrer bebendo laquê. Nem respirei para não explodir. Papai entrou em casa e foi direto ao banheiro. “Foi alguma coisa que eu comi.” Mamãe sorriu, triunfante. E pediu uma pizza. Vaca. Dormi pesado, barriga quente de arroz doce. De manhã, como sempre abri o olho direito depois o esquerdo e rumei para a cozinha. Naquele dia, o café da manhã tinha que ser especial. Mamãe ainda dormia. Papai estava no banho. Fiz suco de goiaba e por engano coloquei uma colher pequena de pimenta branca. Bebi, resignado. Sempre morri de culpa por não morrer de fome. Estava bom. Bebi outro copo cheio. Mamãe entrou de roupão na cozinha. Bebeu o terceiro copo. Cheio. Vomitou por horas seguidas, berrando que eu era um escroto e que nunca mais poderia chegar perto da cozinha. Nunca mais? Cai sentado. Joguei pimenta nos olhos dela e empurrei a cabeça na privada para que engolisse o próprio vômito. Cada um tem a morte que merece. Claro que ela não morreu, levantou insana. me bateu até sangrar e mandou para casa de vovó, onde estou até hoje, cinquenta ou mais anos depois. A cozinha da minha vó não é bem o que sonhei, é verdade. Os ladrilhos vermelhos são encerados, o que provoca pequenos acidentes, principalmente quando degolo galinhas. A pia é pequena, de mármore velho e com uns sulcos propositais absolutamente imbecis para uma pia, a água escorre por eles, fica parada e se não for manualmente tirada dali, fede. Tem também os vidros da janela, coloridos. Alguns tem decalques de flores. Avós tem licença para cafonice mas convenhamos que algumas exageram. Para não ser injusto, gosto muito do sistema de guardar temperos secos. Eu que inventei, claro. Debaixo da mesa de apoio de madeira preguei tampas de vidro de maionese. Depois, rosqueei os vidros cheios. Para usar desrosqueio, tiro o nescessário para o prato e de volta para o lugar. Simples. Chique. Sofisticado. Voialá. Se esta merda de chef de cozinha der errado eu viro decorador de casa de velha.
Escrito por Cristiane Lisboa às 13h24
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
O amor acaba
O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois do teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, no meio do cigarro que ele atira com raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois de uma noite voltada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão, como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de lumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavalheiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às provícias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplismente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, ás vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o giceneu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não recomeça, na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó, no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre os astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e se quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu uma bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha, às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; ás vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido, mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda e articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para começar em todos lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
O amor acaba – Crônicas Líricas e Existenciais, de Paulo Mendes de Campos, que é meu senhor e nada me faltará.
Escrito por Cristiane Lisboa às 10h58
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Anoto em um caderno verde sujo todos os péssimos dias. Capricho nos pormenores, ouso requintes como a cor exata do céu e a temperatura. Não que eu leia isso depois e me orgulhe, ou coisa assim. Considero deselegante este tipo de desespero masoquista. Anoto para não explodir. Anoto para entender que mesmo quem dá e quase sempre esse mesmo pode ser mesquinho, minúsculo, torto. Anoto para lembrar que as portas do peito devem sempre ter chaves. O tempo todo. Nada de brisa, de banho de sol. Alguém pode entrar lá dentro e pisotear. É que não sei se tu sabe, mas grama só nasce uma vez no coração.
Escrito por Cristiane Lisboa às 16h22
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Sentir expande por dentro. E dói. Manter-se atenta é difícil quando há tanto e muito. Mas, se é pra cair, que seja fundo.
Escrito por Cristiane Lisboa às 15h46
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Helena nunca apanhou de um homem. Não tem estrias e sabe programar o vídeo. Quando pinta as unhas de vermelho-sangue, dá-se ao luxo de não lavar a louça. Aos domingos, tira o coração do peito e dorme vazia. Gosta mesmo é de atear fogo em aranhas caranguejeiras e ver como elas seguem caminhando até morrer. Uma vez, amou tempo suficiente para doer muito. Tem dois olhos iguais. E uma vida igual à sua.
Escrito por Cristiane Lisboa às 15h45
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Homem do não sorriso,
Engana-te, tolo. Encantar-se é pular num abismo. Só. Embora algumas vezes o abismo seja longo ou eterno, não é um atalho para amor. Mas creia no que quiseres. Ainda hoje achas que me conhece. Ao contrário da realidade em que flutuas, o Tejo brilha de onde escrevo. Saiba que isso pouco muda. O ambiente que nos envolve é ínfimo perto do que possível construir dentro de si. Os trovões emudecem a televisão que mantenho ligada por gosto. Enquanto traduzo aquele tal espanhol do livro de capa verde-azeitona preciso do ruído de palavras em língua pátria. Há quinze coisas que eu diria se estivesses tão perto quanto o chá e as bolachas com gergelim. Todas elas esvaneiam-se no desenhar das letras. Talvez com preguiça de percorrer a distância segura que escolhemos para nos unir. Talvez porque sejam mentiras. Se tu souberes, por favor não diga. Estou confortável na ignorância de sentir. Volto agora ao “caminõ de las palabras” . Não sem saudade. Sylvia
Escrito por Cristiane Lisboa às 15h04
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
"Racionalizar o que se sente não significa que vai passar mais rápido. É apenas uma maneira polida de utilizar o lado direito do cérebro para não enlouquecer a cada contragosto."
Sylvia não sabe dançar. Para logo, meu bem. :)
Escrito por Cristiane Lisboa às 14h55
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Carnaval
Amanhece azul, embora o sol seja fraco. Ele, que de menino acostumou-se a acordar quando a manhã ainda é um pouco noite, está sentado no banco ao lado da roseira. Tem os olhos fechados e uma das mãos no bolso da calça de linho marrom. Uma estrela teimosa segue piscando no céu claro como que inconformada pelo término da noite. O jacarandá florido em amarelo chove flores pequeninas, dessas que desde o instante de assentamento na calçada viram pedaços de sabão, tal a rapidez com que provocam tombos e escorregões. Um gosto salgado de suor de amor pode ser sentido sem que seja preciso abrir a boca. Há um odor ocre de escândalo. O vento traz versos soltos de marchinhas antigas e espalha purpurinas que serão visíveis apenas amanhã. Há uma bailarina que corre de pés descalços equilibrando latas de cerveja na saia de tule rosa. Ela vai ao encontro de um pirata sem camisa que a espera em frente ao prédio residencial. Dois rapazes vestindo bermudas e com chupetas gigantes pendurada no pescoço beijam-se apressados atrás do muro do jardim. Outra mulher, muito loura, caminha falando alto de felicidade. Atrás dela, dois garis dançam passos coreografados com as vassouras. Todos sorriem. Sete moças com os corpos artificialmente bronzeados desfilam de biquíni, cocar, arco e flecha. O homem que espia a rua da janela do quinto andar dirá no tribunal daqui a alguns anos que a culpa de sua obsessão por descendentes de índios foi ter visto elas ao acordar. Na geladeira do apartamento da zeladora há um bilhete preso com imã em forma de cachorro e que late ao ser apertado na barriga. O bilhete não tem assinatura e nele palavras em letras de fôrma dizem: “Que música já disse até nunca mais?” Ele balança o corpo, acompanhando uma melodia diferente da que se escuta. Tira a mão do bolso, a coloca perto do nariz e inspira o perfume grudado ali. Fricciona os dedos como se isso fosse manter o aroma intacto. Insatisfeito, leva a mão de volta para o mesmo bolso. O apito do telefone do quarto e sala entra no jogo de premonição de seu dono e toca. Provocando uma corrida com esbarrão na quina da mesa e dois suspiros. É ela. Escutou seu peito chamando-a. A dona do cachorro que só tem duas patas sai usando guarda-chuva. Tem medo dos respingos sedutores dos confetes. Já não tem mais idade – sussurra para o portão. Duas odaliscas de mãos dadas treinam caras sérias no espelho do elevador. Um bebê é fabricado por uma Estátua da Liberdade e um Batmam no banheiro do baile da cobertura. Oito pedidos de casamentos são feitos e todos aceitos e esquecidos no mesmo instante. A máquina registra a foto que ao ser vendida para uma célebre revista vai custear uma viagem de estudos a Portugal. Ele abre os olhos e vê as folhas da roseira se descabelando com a aragem típica das sete horas da manhã. Encolhe as pernas para cima do banco, as abraça e coloca a cabeça no meio.Apalpa devagar o bolso. Passa a mão na calça para limpar alguma sujeira invisível e o nervoso. Mantendo os olhos na roseira tira do bolso esquerdo um lenço de cetim vermelho com uma moeda prata pendurada em cada canto. Acomoda-o em cima do banco e contempla. Um dos lados ostenta um nariz riscado as pressas com lápis de olho. O outro, tem letras escritas em uma caligrafia que só os olhos de Humberto decifram: “O esboço de uma obra que é você, no lança-perfume. Tarsila” Humberto gargalha. Triste, como a própria lembrança. Decide pelas escadas e sobe de dois em dois degraus. Precisar esconder por mais quarenta anos o lenço e o coração. Carnaval nunca combinou mesmo com dignidade.
Escrito por Cristiane Lisboa às 14h49
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
"Eu, você, nós dois, já temos um passado, meu amor/ Um violão guardado, aquela flor/ E não podemos mais..."
Escrito por Cristiane Lisboa às 14h40
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
|