Os historiadores mais atentos sabem onde foi mesmo que começou a má fama do mês de agosto. Nada a ver com cachorros mansos ou loucos, a explicação, como quase todas as explicações para taras, manias e lendas é sentimental. As mulheres portuguesas não se casavam em agosto. É que esta era época com condições climáticas perfeitas para que as naus se lançassem ao mar procurando doenças, monstros, glória e quem sabe, terra à vista. Isso significava lua de mel curtíssima para uma jovem apaixonada e depois, muito provavelmente a viuvez. Tudo, muito antes do tédio mole do casamento, quando as manias do marido e os bigodes sujos de sardinha e doces de ovos se transformam em ódio, sentimento este que é sabido ser o único que se sobrepõe ao amor, fazendo com que a jovem viúva possa continuar a vida. Não sem um fado, claro. Chegando aqui, agosto era o mês escolhido pela vigilância sanitária para vacinar e sacrificar cachorros sob a desculpa de que estavam com raiva. Pequenas babas comuns aos quadrúpedes amigos já causavam pavor em tempos sem vacina e pronto, menos um cheirando lata. Somando as duas coisas e mais outras como árvores ainda secas e estalos noturnos, está tudo explicado e aceito. Agosto é má sorte e ponto final. O que talvez explique o fato dele ser também o mês mais descarado do ano. Ao menos no Rio de Janeiro. São nos dias dele que as manhãs são limpas a ponto de nos dar uma culpa bonita e um medo católico de castigos impostos por um Deus que usa fita métrica para medir pecados e suspiros. Porque é quase primavera mas ainda inverno, o sol é morno. Porque tem um vento fraco, o cheiro que se sente ao respirar fundo é de manga descascada esquecida no cesto da cozinha. Como o que é bom, vai apodrecer, mas até que isso aconteça, ao menos o cheiro é doce.
Escrito por Cristiane Lisboa às 16h33
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vento, vento, vento destes que movimenta cabelos e saias e ideias e moças e transforma sacos plásticos em fantasmas de assustar corujas e leva as pétalas das flores mortas pela janela, via centro da cidade, será que chega até aquele homem que não enxerga? não deve chegar, ela não diz mas pensa, resignada, tem esta coisa antiga de pensar enquanto suspira em falsete, fosse personagem seria a prima do primo Basílio, aquela que "tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente, era a primeira que lhe escreviam aqueles sentimentalidades". mas não é, portanto, não pode nem se dar ao luxo de vestir luvas de renda, corpete combinando, meia presa na cinta meio gasta e bater na porta alheia como se estivesse passando por ali, “nossa tão central este teu apartamento, não?” o homem que não enxerga diria “imagina, aqui é longe de tudo, tu deve ter errado” e ela riria porque sempre ri em situações de alto risco de perda imediata de dignidade e então iria embora batendo a porta com uma certa força mas não o suficiente para assustar. sabe que assusta o suficiente só por ser e não gosta de estragos no momento errado. e o vento, o vento aumenta a força, as flores não precisam dele para se despetalar. mas ele não sabe. e não vê.
Escrito por Cristiane Lisboa às 16h13
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De volta, cabelo na nunca e a certeza de que estivesse em um lugar vivo, que existe sozinho, independe de quem sobe e desce aquelas ladeiras escorregadias e com cheiro de gente. O mundo, este moinho, me recebe com sol e boas notícias, tanta saudade de boas notícias, tão mais lindas as palavras que não existem nos dicionários e as fotos que tiraste sem que eu visse. Filmes de terror de manhã cedo, tua mão ali bem perto, não pego. O óculos quebrou em quatro partes, a festa de aniversário é logo ali e não sei mais o que faço para recuperar a fé. Me ajuda?
Escrito por Cristiane Lisboa às 16h26
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