cristianelisboa


Henry

 Você é uma pessoa corajosa. Tem coragem de despedaçar os outros e ainda seguir existindo, como se a vida fosse permitida a gente deste porte. Saiba por mim, não é.

Fiz daquele jeito que combinamos, saí com as pessoas que me interessavam, permiti que mãos estranhas pousassem sobre meu ventre, recebi no cu línguas de texturas desconhecidas e até beijei. Beijei bocas com gosto de abismo, de absinto, de destilados barato, de água de rosas, de ópio e até com gosto de nada. E agora pergunto: e dai? Foi quase divertido, admito. Mas, depois, o que restava era apenas, eu Mona, a sua Mona.

Rezei – sim, rezei – para um deus, um superior, um bruxo, alguém que pudesse me explicar como pode um amor ser mesquinho. E fraco. Nosso amor é fraco Henry. Não vai suportar mais nada depois disso, acredite, admita. Daqui iremos sucumbir a frustrações óbvias e vais me deixar pela literatura, pelos contos de uma página a um dólar a porra da página, ou por uma mulher que finge escrever. Vais esquecer que somos nós dois em uma guerra, agora e para sempre, amém.

Ou não. O que você fará, Henry, amor meu? Vai dizer que me ama? Vai me querer e somente isso, nada mais? Sejamos francos, os cafés desta cidade tola e iluminada vão te dar de presente uma nova musa. Gargalho ao pensar nisso. Nenhuma delas vai saber que dentro de você existe um cerne de afeto só alcançado a quem te abre o peito. Nenhuma delas vai ter meu cheiro, Henry, ah, meu cheiro que faz você gozar pleno ao senti-lo de longe, na imaginação. Nenhuma delas, vai conseguir ser a sua mulher inventada a ponto de ser real. Eu te amo, seu desgraçado. E, enquanto você não entende que isso também pode acabar, vou insistir.

 

Mona 



Escrito por Cristiane Lisboa às 13h57
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Paris, uma quarta feira qualquer de inverno.

 Mona,

         Deste quarto no alto posso observar os telhados da cidade luz. São todos mudos, qualidade que aprecio. E ostentam com dignidade as manchas provocadas pelo tempo, as pisadas tortas de amores fugidos e os  restos de vinhos atirados ao ar para os deuses. Mal sabem as pessoas e os telhados que há muito os deuses estão mortos.

         Abri sua última carta. Cheirava a medo. Estranhei. Quem era você ao escolher o papel, escrever tudo aquilo e enviar sem ao menos se dar ao trabalho de uma revisão final? Ciúme e insegurança não doenças permitidas a você, ou pensas que é só uma mulher? Mona, há muito falamos sobre a capacidade humana do gozo, castrada por uma mesquinharia chamada casamento, sociedade, a puta que nos pariu. Porque haveríamos nós dois nos submetermos a isso? Diga-me, darling. Tente defender este seu ponto de vista tolo e verás que foi apenas uma fraqueza. E como amo as suas fraquezas. Amo porque fazem com que sejamos mais próximos, pois sou feito basicamente delas. E porque você as guarda na parte de trás do pescoço, ali onde a pele é imaculada de sol, vento e noites sem dormir. Ali onde o cheiro é sempre agridoce e os pêlos tem uma textura fina como fios de seda. Ali onde minha língua não repousa porque vai e volta, cansando apenas quando você implora por outra coisa.

Isso, toque na parte de trás do seu pescoço com estes dedos longos com unhas delicadamente descascadas. Brinque que estou ai, Mona. Saiba que eu estou ai. Quando queres, meus olhos olham através dos teus. Mas só porque você permite. Por isso, não é preciso me expulsar ou escrever tolices em papel lilás. Muito menos dizer “sua Mona”. Você não é minha, nunca será. Mas eu sou seu. E para que eu morra, basta que você pare de acreditar que eu só existo.

 Feliz, feliz dia dos namorados,

 Henry

 



Escrito por Cristiane Lisboa às 14h01
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cuando miro fundo en tu ojo claro creio em Deus novamente. e no poder calmante da água com açúcar. o vento sopra fortíssimo e faz voar os pedaços de espelho  que eu encarava como sendo a face na qual se confia. quebrado ele, sobra a verdade. e é nos cabelos dela que me agarro com força. quem sabe apenas o que se dá ao trabalho de saber espera que eu faça como sempre: lágrimas, explicações, soluços, cartas, letras digitais. não havia reparado que há tempos escolhi o silêncio, os banhos de banheira e discretos suspiros. que aprendi a confiar nas horas e no sol morno das manhãs de primavera. e que lembrei que minha música favorita sempre foi "todo cambia". 



Escrito por Cristiane Lisboa às 12h54
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Desejo e tudo mais. A moça abre as cartas e descubro que o caminho é este. Irremediavelmente. Que o homem com nome de vô não vale o que come, que vou viajar, que dinheiro, só o suficiente - penso em que suficiente seria este mas não digo nada, morro de medo de cartomante - que a saúde vai estar boa, que as línguas seguirão destilando as próprias verdades, que amigos contarei nos dedos mas que estes vão ladrilhar meu caminho com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes, que os vestidos de noite serão usados com o amor, amor este que chegará muy seguro de quem é o que quer, como vai ser. Chorei, como de costume, acreditei em tudo e voltei a plantar maçãs. Amanhã, vai ser outro dia. 



Escrito por Cristiane Lisboa às 20h45
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